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Quotidianos Poéticos

crónicas mensais por Pedro Jubilot no Cultura.Sul - suplemento cultural do jornal Postal do Algarve

crónicas mensais por Pedro Jubilot no Cultura.Sul - suplemento cultural do jornal Postal do Algarve

Quotidianos Poéticos

27
Jan18

Fernando Cabrita

Nascido em Olhão em 1954, Fernando Cabrita é advogado de profissão. A escrita, nomeadamente a poesia é uma das suas maiores paixões. Tem colaboração dispersa em jornais e revistas e integra várias colectâneas de poesia. Edita desde 1980, e nesse ano, com ‘Os Amantes Em Silêncio’ ganhou o primeiro de vários prémios que tem obtido desde então. Os seus mais recentes livros são: -Le Deuxième Livre de la Maison  - Poesia -Marrakesh (bilingue português-francês), Abril 2017; - El Sermón de La Montaña y Oda de Viaje -  Poesia – Ilhas Canárias, 2017; e Três Odes – Poesia – Portugal, 2017. É o organizador do Festival Internacional Poesia a Sul, Olhão, que vai entrar na sua 4ª edição anual.

 

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Como é o teu quotidiano com a poesia da tua vida? Da tua poesia?

Nada de especial a assinalar. Procuro – às vezes com dificuldade – fazer conviver o advogado com o escritor. Manter a vida profissional, que é densa, sem perder a capacidade de aprofundar a minha actividade poética e essencialmente as leituras de poesia. Ler, como forma essencial de poder escrever. Cada vez que oiço poetas a declarar que não lêem mais do que os seus contemporâneos, que não lêem escritores ”passados”, dá-me arrepios. E acho-os mais dignos de pena do que de irritação.

Como acontece a poesia nos teus dias, ou como a fazes acontecer?

 Escrevo sem agenda prévia. Ou a poesia surge e impõe-se-me, ou não ando aí pelos cantos à procura dela, à cata de “inspirações”. Não escolho horas nem locais. Na verdade, sinto que quando a poesia surge, é ela que escolhe. O que me cabe é estar aberto, intelectual e sentimentalmente, para não me opor a isso; nem querer estabelecer horários ou rituais para que se faça poesia a horas certas, como uma obrigação, ou uma agenda, ou um Borda d’Água.

Menciona alguns dos teus livros/poemas preferidos?

Dois livros: Uivo, de Allen Ginsberg; A Noção do Poema, de Nuno Júdice. Depois há poemas: Captain, o my Captain, de Walt Whitman, ou Tabacaria, de Álvaro de Campos. E outros, claro.

Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever?

Há um poema no meu livro Le Deuxiéme Livre de La Maison, que em Abril passado se publicou em Marraquexe e que se intitula  Salutation  à Mes Maitres (Saudação aos meus Mestres); e aí presto homenagem aos que seguramente me influenciaram e vêm influenciando na escrita poética, nomeando-os e agradecendo-lhes essa influência. É um poema de que gosto particularmente, porque o entendo também como uma acto de justiça e de reconhecimento; e ainda porque é a expressão poética daquilo que desde sempre refiro como darwinismo literário, ou seja, essa noção de que nós escrevemos aos ombros de quantos nos antecederam, bebendo e fruindo dessas suas escritas e da larga influência que elas deixaram em nós. E se alguma originalidade temos na nossa obra ou naquilo que escrevemos, ela está em sermos capazes de pegar na lição desses mestres, no ecos das suas vozes e, sobre elas, acrescentar de algum modo uma pequenina parcela nossa, uma pequenina sonoridade da nossa própria voz. É um diálogo com os que nos antecederam , em que os ouvimos e queremos, com eles e junto a eles, fazer-nos ouvir. É assim toda a literatura.

 Os nomes estão lá,  no poema,  mas posso aqui repeti-los: Whitman, Cesário Verde, os diferentes Pessoas, Borges, Pound, Ginsberg, Nuno Júdice. Há outros, claro, como Auden,  ou Diana di Prima,ou Ferlinghetti, ou Elizabeth Bishop. Mas aqueles são os que nitidamente estão sempre presentes na minha poesia. E há depois os que vêm de uma ancestralidade que só remotamente apercebemos. Ainda só há pouco tempo tive a noção e o conhecimento de que um traço muito comum na minha poesia (qual seja o de introduzir ao lado do português, de modo natural e no fluir do discurso, frases e expressões em outras línguas (sejam frases coloquiais, excertos de poemas de outros, trechos de canções ou bocados de conversas), fenómeno que eu julgava decorrer das leituras de autores recentes, como Elliott, por exemplo, é afinal uma herança que vem já de muito antes.  Ibn Quzmân, poeta  cordobês dos finais do século XI, de quem se diz que poderá ter-se originado a poética do flamenco, mesclava nos seus poemas, ao lado do árabe culto e do árabe popular, palavras e expressões em castelhano  ou galaico-portugês, sem nunca comprometer o ritmo natural do poema. Por isso digo: a originalidade é apenas continuidade, que deve sempre respeitar e lembrar o que já antes de nós foi feito.

Caneta e papel avulso, máquina de escrever, que material usas para escrever, como é o processo material da tua escrita?

Como escrevo sem plano prévio e sem hora marcada, não posso dar-me ao luxo de escolher o meio material para essa prática. É o que estiver à mão no momento em que sinta a necessidade (e tenha a oportunidade e possibilidade, que nem sempre são contemporâneas da necessidade) de escrever. Por isso tenho textos em vários cadernos, ou em folhas soltas, escritos manualmente, também sem qualquer caneta específica. É a que estiver disponível e me saia da mochila quando a busco. E também os tenho em ficheiros de computador, se acaso estou ao computador quando surge a elaboração do poema. De qualquer modo, não creio que o meio material seja assim tão importante no processo. Pode ser mais ou menos confortável para um ou para outro autor o instrumento de escrita ser este ou aquele; mas não creio que o poema se agigante ou se empobreça por ser escrito à mão ou ao teclado.

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Vícios, manias e segredos contáveis relacionados com a tua escrita …

Não sei se serei a melhor pessoa para falar de vícios ou manias na minha escrita. Penso que cabe a quem leia detectá-los, se os houver, e expô-los. É esse, aliás, um dos papéis do leitor, figura que tantos escritores alegadamente desprezam ao declarar que não escrevem para ninguém, que escrevem para si próprios ou para o futuro ou lá para o que quer que seja,  sob a alegação de que os leitores  actuais os não merecem. Ora, a poesia faz-se também para os leitores, como a outra face do processo criativo. Posso lembrar aqui a palestra Poesia e Composição - A Inspiração e o Trabalho de Arte, que João Cabral de Melo Neto proferiu em 1956 e na qual se ocupa dessa divisão da composição poética em dois grandes modos, o puramente intelectual, que busca essencialmente uma técnica particular e uma escrita impessoal, desligada do autor mas também do leitor e que quase sempre resulta numa escrita sem emoção; e o modo emotivo, inspirado, que faz do poema o veículo da experiência social, pessoal e psicológica do autor, quase sempre surgido num acto espontâneo e involuntário, a que o autor que o recebeu quase inconscientemente, depois confere pelo seu labor poético os impulsos construtivos literários necessários, suprindo assim as fragilidades que  o modo inspirativo sempre encerraria. Mas quer num quer noutro dos métodos, o leitor é figura indispensável, central, incontornável. O discurso, que algum poeta possa usar, de que o leitor o não merece, , revela quase sempre o despeito pessoal que o escritor que se auto-qualifica como génio, ou escritor de vanguarda ou poeta excelso ou que se supõe num trono literário de onde  ele e só ele definirá quem merece o título de escritor ou não, esse discurso é o do ressabiamento pelo facto de os leitores, na verdade, preferirem outros autores. E em vez de reconhecer as suas fragilidades e tentar superá-las, esse tipo de escritor sai pelo caminho mais fácil -- usar esse bordão: o leitor não me merece. E os autores que ele, leitor, eventualmente eleja, serão taxados de medíocres pelo autoproclamado génio.

 Que livro de poesia estás a ler/ leste recentemente?

Creio-me um leitor compulsivo de poesia. Agora mesmo estou a reler um fabuloso livro, sobre o qual quero escrever uma nota de apreciação crítica. Trata-se de um só poema, de Antonio Orihuela, editado em 2007 e intitulado Que el Fuego Recuerde Nuestros Nombres. É um longo e belo texto poético, claramente influenciado na temática, na forma e na filosofia pelos poetas da beat generation, muito por Ginsberg mas também por Ferlingethi, mas sobretudo pela figura de Neil Cassidy, um dos expoentes do movimento beatnik celebrado quer por Ginsberg quer por Kerouak. É Cassidy, aliás, quem surge na capa do livro de Orihuela, ao volante do seu autocarro.

Mas como se trata de uma releitura (talvez a quarta), vou simultaneamente lendo os diversos autores arábigo-andaluzes que estão compendiados por Emílio Garcia Goméz desde 1939; e os que mais recentemente constam na antologia Poesía Andalusí, coligida por Manuel Francisco Reina.

 

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Queres falar sobre a tua atividade cultural, nomeadamente sobre o teu mais recente trabalho como coordenador dos encontros Poesia A Sul em Olhão.....

O Poesia a Sul foi uma experiência bem sucedida, até agora. Obviamente que só o apoio que desde sempre tem sido dado pelo Município de Olhão e pessoalmente pelo Presidente António Pina permite esse sucesso que, espero, continue. Em três anos conseguimos atingir um patamar de reconhecimento não só nacional, como era a nossa primeira aposta e foi o meu compromisso com o Município  - pôr Olhão no roteiro poético nacional --, mas essencialmente de reconhecimento internacional. Tornámo-nos parceiros de outros Festivais Internacionais de Poesia em Marrocos e Espanha, editamos os Cadernos de Poesia que são lidos internacionalmente e onde colaboram escritores de todo o mundo, o nome de Olhão e do Poesia a Sul aparecem referidos em diversa imprensa, rádios, blogs, páginas literárias e programas na Irlanda, no México, no Porto Rico, na França, no Chile, no Vietnam, na Turquia e em outros mais países;  temos por mediapartners as grandes rádios nacionais Antena 1 e Antena 2; e a nossa previsão é a de que a 4ª edição, em 2018, possa  ser ainda de maior projecção internacional.  Sei que há gente que entende que os Festivais de Poesia não têm qualquer utilidade; que são como que uma feira de vaidades ou uns encontros de amigos. Na verdade, a poesia faz-se na intimidade de cada um, no silêncio de cada autor  recolhido em si mesmo. Mas a divulgação da poesia faz-se publicamente, em livros, em jornais, em letras de canções, em recitais, em festivais, em encontros literários. E os Festivais de Poesia cumprem objectivamente essa sua missão de divulgar o trabalho criativo dos autores, de os trazer ao público, de abrir portas ao conhecimento, à experiência, à fraternidade. Pela poesia – e pelos encontros de poetas -- se constroem pontes onde muitas outras actividades humanas tantas vezes apenas constroem muros e fomentam rivalidades e ódios. O Poesia a Sul tem procurado também ter esse papel; e demonstrar internacionalmente Olhão como um centro de irmandade poética onde escritores do mundo se encontram e convivem.

 É uma iniciativa (e não o digo por ser eu que a organizo) de que o Algarve se deveria absolutamente orgulhar. Virá o tempo.

 

 Um poema inédito

 

Este poema é o capítulo V (seguramente o mais pequeno) de um livro de poemas que estou a escrever de há uns quatro meses para cá. Ainda não tem título, o livro.

 

À flor do junco sucumbíamos.

 Naquele inverno que passou confessaste-me  a tua dor.

 Subimos a uma montanha onde não havia neve. Nada agitava a flor do junco   a rosa.

À flor das vinhas sussurrávamos. O quê não lembro.

 Recordações  fragmentos   síncopes.

E essas coisas que dizíamos eram belas e antigas.

04
Jan18

MARIANO ALEJANDRO RIBEIRO

Mariano Alejandro Tomasovic Ribeiro nasceu em Buenos Aires, em 1993. Aos dez anos a sua família deixou a Argentina e estabeleceu-se em Portugal. Estudou em várias Universidades, passando pelos cursos de História da Arte, Medicina e Psicologia, tendo uma licenciatura neste último e uma pós-graduação em Teoria da Literatura. Colaborou em diversas revistas literárias como a Sizígia (CanalSonora,2014), Modo de Usar & Co., Flanzine e Enfermaria 6. Tem publicados os livros “Antes da Iluminação” (Mariposa Azual, 2016), “Carta em fuga para cravo e Drá” (Douda Correria, 2017) e ainda “Cabeça de Cavalo” (Macondo, 2017), este último no Brasil.

 

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Como é o teu quotidiano na escrita da tua poesia?

A poesia vem por momentos. Podem passar dias, semanas em que não escrevo nem penso em escrever, e depois dou por mim em alturas de muita produção, em que qualquer circunstância, frase, cheiro são o ponto de partida para criar alguma coisa.

 

Diz acerca de coisas dos teus dias em que acontece poesia ou que a faças acontecer?

Acho que a poesia está latente em tudo, enquanto componente do nosso quotidiano, mas depende muito mais do estado de espírito do poeta, se se deixa (ou não) influenciar pelo entorno e ainda se tem convicção de que determinado verso ou poema vale a pena ser passado ao papel.

 

Consegues escolher o teu livro/livros de poesia  preferido/s ? Os mais relevantes?

Leio muita poesia, e tento diversificar a leitura de poesia ao máximo, por isso não conseguiria escolher apenas um. Gosto muito dos poetas do modernismo, do T.S. Eliot, do Ezra Pound, do Rilke, do Almada. O Pessoa aborrece-me um bocado. Mas foram eles que deram o primeiro passo para “mundanizar” a poesia, para a tornar do povo, e isso é um gesto de tanta virtude e de tanto valor que é impossível um autor não se deixar influenciar por eles.

 

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Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever?

Para além dos que mencionei, provavelmente a poesia americana, do Walt Whitman ao Gary Snyder, o Ginsberg incluído.

Na poesia portuguesa tento fugir sempre que posso à influência do Herberto, do Al Berto e do Cesariny, embora goste muito de os ler. Dos nossos poetas contemporâneos a Adília é uma instituição, o Miguel-Manso e o António Poppe também são uma grande influência para mim.

 

Já ninguém usa caneta e papel, quanto mais máquina de escrever, que material usas para escrever, como é o processo material da tua escrita? E o imaterial ?

Quando me ocorre algum verso que me parece interessante aponto-o no telemóvel, às vezes pode chegar a ser um poema inteiro, mas a maior parte das vezes é só um verso ou palavras que na altura me soam bem. De resto, escrevo sempre, sempre no computador, nunca com caneta e papel.

O processo imaterial da escrita é o mais complicado, porque sinto não ter muito controlo sobre ele. Simplesmente acontece e quando a frase que surge na minha mente parece por alguma razão adequada, e aí passo-a a um suporte físico.

 

Quando ( dia, hora, estação do ano) escreves ?

Sempre e só de manhã.

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Vícios, manias e segredos contáveis relacionados com a tua escrita …

Não mostro absolutamente nada dos meus textos até não estarem publicados e no seu estado final, quer seja impresso ou online. Tirando isso, a minha namorada é a única pessoa que consulto durante o processo de criação, quando não estou completamente seguro sobre alguma coisa. Também não escrevo em público.

 

Que livro de poesia estás a ler, leste recentemente?

Leio sempre poesia em paralelo com algum romance ou livro de não-ficção. Ontem estive a reler o livro 50 Poemas do Tomas Tranströmer, editado pela Relógio D’Água. Antes desse, foi o Obra Gruesa, do Nicanor Parra.

 

Escolhe um poema teu para nossa leitura…

 

SEI

 

As mãos atadas ao almofariz

A ponta dos dedos a querer decifrar

O morse do quotidiano nas cicatrizes da madeira

Distancia-te um pouco desse sol de alvorada

Finge-te finnegans ao despertar

Sê humildemente

A humidade

Da terra

 

In Cabeça de Cavalo (Edições Macondo, Brasil, 2017)

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02
Dez17

MARCO MACKAAIJ

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Marco Mackaaij nasceu nos Países Baixos em 1970 e vive em Portugal desde 1995. É  professor de Matemática na Universidade do Algarve e caloiro de poesia fora da academia. Alguns poemas seus estão publicados em revistas literárias e antologias. Em Março de 2015, a editora CanalSonora (Tavira) publicou o seu primeiro livro de poesia E se não for?. Recentemente também publicou uma pequena mostra de poemas novos, a plaqueta Perdidos e Achados (Nov. 2017).

 

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Como surge a poesia em ti, nos teus dias, como se mistura com o teu dia a dia; onde, como, quando, escreves. Tens vícios, manias de escrita….

 

Não costumo ter ataques de poesia nos sítios apropriados: em frente ao mar (almejando lá voltar depois das marés da morte), em cima de cordilheiras líricas (para ser mais alto), em camas ofegantes de cortesãs com línguas de mel e corações de pedra, em gaiolas intelectuais para rouxinóis urbano-depressivos, ou em becos malditos, mal iluminados e altamente recomendáveis para jovens poetas de boas famílias em decadência.

 

As ideias menos banais assaltam-me na cozinha, a descascar batatas ou a arrumar loiça, ou algures num sítio surpreendente entre o leite do dia e as pizzas congeladas do Continente. Tudo muito pouco adequado, mesmo para a carreira de um poeta menor, sem tempo para grandes epifanias. Enfim, as ideias que sobrevivem desde o pagamento na caixa até ao silêncio crítico da madrugada seguinte, sozinhas e abandonadas, sem pingo de poesia, no subconsciente reservado para o efeito, entrego-as aos dedos e à sabedoria do teclado.

 

Aí sim, convém surgir algo, sabe-se lá o quê, de onde, quando e porquê. Simplesmente: Algo. Como sabem os que já o procuraram pela própria mão e fracassaram melhor ou pior, este algo é raro. Tão raro que por vezes me pergunto se existe mesmo (ai memória!, porque é que nunca me ofereces referências exactas, apenas farrapos de citações parafraseadas?) Poderão ser poucos, os meus poemas que revelam a possibilidade dessa existência, mas não desisto da procura. Procuro sempre. Sempre algures entre a térrea realidade das batatas, o materno leite do dia e o rigor mortis das pizzas, com uma pequena paragem em frente aos líricos lombos de bacalhau da Pescanova, para ver se estão com desconto.

 

E quanto a autores que lês, ou leste, que te possam ter  inspirado, e os que admiras…

 

Sou mais um glutão de amuses-bouche, do que um rapa-tachos de obras completas. E o que já está feito magistralmente, é melhor não imitar demasiado: epígonos não costumam ser tidos em boa conta.

Contactei primeiro com as poesias holandesa, greco-latina e anglo-saxónica. Metade da poesia que leio hoje em dia continua a ser holandesa, mas vou restringir-me aqui à      poesia de língua portuguesa.

Li primeiro Camões, cantigas disto e daquilo e deste e daquele do Cancioneiro Geral, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Mais tarde, mergulhei no Cancioneiro Actual, i.e. uns poucos poetas do século dezanove (a partir de Cesário Verde) e, principalmente, um número razoável de poetas do século vinte (um Século de Ouro, segundo o título de uma antologia).

Desde que comecei a escrever poesia, um desvario muito mais recente, comecei a ler e a estudar mais especificamente poetas com que sinto alguma afinidade escritora (em vez de apenas afinidade leitora, que é sempre mais abrangente, julgo eu): Adília Lopes, António Manuel Pires Cabral, Jorge Sousa Braga, João Luís Barreto Guimarães, José Miguel Silva e Bénédicte Houart, para mencionar apenas alguns poetas vivos de quem li mais que um livro.

Em geral procuro ritmo, musicalidade, imagens surpreendentes, uma luz nova sobre um tema conhecido, os pés firmes na realidade (em todas as suas facetas, sem tabus nem hierarquias) com pitadas de humor/ironia/cinismo e/ou absurdismo/surrealismo, e algumas palavras, ou versos inteiros de preferência, a brilhar como estrelas ou como facas e cutelos em pleno dia. Fujo de versos maquilhados de verdadeira Poesia como quem foge do verdadeiro Amor de uma velha prostituta. Sou tão metafísico como um cão a cagar (fazendo minhas as palavras do poeta neerlandês Gerrit Kouwenaar) embora por vezes goste de tomar Tolentino Mendonça com café no domingo de manhã. Odeio quando o nariz de Poenóquio cresce demasiado: poesia sobre poesia sobre poesia sobre poesia etc. De resto, estou aberto a todo o tipo de poemas, desde que me causem uma impressão minimamente duradoura. Adoro poetas menores nos seus poemas mais inspirados, os incontornáveis, contorno sem escrúpulos quando me aborrecem.

 

Que livros estás a ler? Poesia ou outros géneros? Queres comentar sobre eles?

 

Nos últimos tempos:

Keeping an eye open de Julian Barnes, uma compilação de ensaios sobre arte (principalmente pintura). Gosto muito de ver obras de arte e ler sobre arte (i.e. artes plásticas). Sofia queria voltar, depois da morte, para que lhe fossem devolvidos os anos que não viveu junto ao mar. Eu gostaria de voltar para que me fossem devolvidos estes anos que vivo longe de museus de arte.

The dream of enlightenment de Anthony Gottlieb. O subtítulo diz tudo: The rise of modern philosophy. Como matemático tenho uma dose saudável de cepticismo relativamente à filosofia: falta o rigor clínico e factual nos conceitos e nos argumentos que hoje em dia são a norma na ciência e na matemática. Por outro lado, a filosofia moderna (junto com a ciência, obviamente), digamos desde Descartes, teve uma influência tremenda na maneira como vemos actualmente o mundo, o universo e o nosso lugar nele como seres humanos. Enfim, leitura obrigatória para qualquer intelectual, mesmo que seja um simples matemático.

Toen met een lijst van nu de Thomas Eyskens. Comecei a ler ontem no avião. Trata-se de uma biografia do jornalista, ensaísta e poeta flamengo Herman de Coninck, que morreu de uma paragem cardíaca em Lisboa em 1997, quando ia a caminho da Gulbenkian para participar num encontro de escritores portugueses e neerlandeses. De Coninck era um poeta autobiográfico. Sabemos que, em troca de mais autenticidade, mais vida, menos literatura sobre literatura, menos arte por arte etc., a carga autobiográfica pode limitar a universalidade de uma obra. Ou não: quando li os seus poemas, nunca senti falta de mais informação biográfica. Pareceram-me sempre claros, lindos e bastante universais para homens neerlandeses (e flamengos, pelos vistos) da segunda metade do século vinte. Veremos se continuo da mesma opinião depois de ler esta biografia.   

 

Poesia: Manual de Prestidigitação de Mário Cesariny, Mike Tyson para Principiantes de Rui Costa, Nadar na Piscina dos Pequenos de Golgona Anghel, New and Selected Poems de Charles Simic e alguns livros de poesia neerlandesa.   

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A DILATAÇÃO DO TEMPO

 

                                                      para a Zé

 

 

 

Acumulamos aniversários

comemorando o progresso do passado,     

mas como medir o amor?

 

Reza a Lei da Relatividade que

astronautas em viagem a Vénus

se manteriam jovens do ponto de vista

de um observador que envelhecesse

com os pés inertes na Terra.  

 

Para eles a diferença é nula:

estria por estria, ruga por ruga

(qual Lei de Talião) afeiam juntos

entre corpos celestes.  

 

Mas quando a base os chama (e chama

sempre enquanto durar) parece

que enganam bem o terráqueo tempo.     

Que mais podem desejar?

02
Dez17

LUÍS ENE

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Luís Nogueira, que assina o que escreve como Luís Ene, tinha 16 anos em 25 de Abril de 1974 e reside actualmente em Faro, onde passou grande parte da sua infância e a adolescência.

O seu livro mais recente – ‘Guru de Algibeira’ (Sílabas&Desafios,2017) - é um pequeno grande livro de conselhos e de epifanias que leva a escrita breve aos limites entre a vulgaridade mais óbvia e a sabedoria mais profunda. Uma escrita cheia de paradoxos, como a vida. E de ironias.

Em 2002, foi vencedor da 1ª edição do concurso Novos Talentos com o romance ‘A Justa Medida’, publicado pela Porto Editora. Criou o blog Mil e Uma Pequenas Histórias, fazendo em simultâneo a sua entrada no mundo dos blogs e na arte da micro-narrativa. Manteve vários blogs e publicou três livros: ‘Blogs’ (em colaboração com Paulo Querido); ‘Mil e uma pequenas histórias’ (Leiturascomnet, 2005); ‘Muchas vezes me sucede olvidar quien soy’ ( colecção Palavra Ibérica, 2006); ‘Saudade de água : memórias de Faro’(Cão Danado, 2011) e ‘Escrever é dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido’ (Lua de Marfim, 2016). Está representado em diversas antologias de poesia e conto. Foi fundador e co-editor da Minguante, revista de micro-narrativas on line. Manteve durante dois anos um programa semanal dedicado à literatura na Rádio Universitária do Algarve. Esteve na origem dos grupos literários Sulscrito e Texto-al. Mantém actualmente o blogue Ene Coisas (em http://luis-ene.blogspot.com). É membro da associação Literatura Reunida. Detesta notas auto-biográficas.

 

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Como é o quotidiano do teu poeta ou eu poético? Como vives com a poesia da/na tua vida?

No outro dia, um amigo, que é poeta, dizia-me que enquanto ele era poeta apenas quando escrevia, eu, por outro lado, era sempre poeta. Num país em que se insultam as pessoas dizendo-lhes que são uns grandes artistas – estejam com atenção em momentos de maior aperto rodoviário – não sei se ser sempre poeta será um elogio, no entanto acredito que existe poesia fora do poema e estou sempre disposto a encontrá-la no meu quotidiano. Não sei o que é a poesia, mas talvez seja esse mistério indefinível que existe no quotidiano e a que muitos poemas tão bem conseguem dar forma.

Devo começar por confessar que não me sinto um poeta, ainda que aceite que a minha escrita tem muito de poesia. Foi sem dúvida o meu gosto pela concisão que me aproximou da poesia e se é verdade que escrevo sobretudo prosa, não é menos verdade que há muito existem poemas em prosa. A minha prosa, como alguém já disse, tem todas as virtudes da poesia, e eis algo com que eu posso viver e que gostaria de acreditar, todavia prefiro considerar-me um escritor a um poeta, ainda que não enjeite ou despreze esse título.

 

Consegues escolher o livro de tua autoria teu preferido? O mais relevante?

O meu livro preferido é sempre o que estou a escrever e infelizmente neste momento não estou a escrever livro nenhum. O meu projeto preferido, e poderia chamá-lo livro, ainda que nunca tenha verdadeiramente sido publicado integralmente, foi o Mil e Uma Pequenas Histórias, com que me aventurei no mundo da escrita breve e em que experimentei quase tudo o que podia escrever nesse formato. Decidi escrever e publicar num blogue com o mesmo nome, mil e uma pequenas histórias, em formato de diário, alimentado todos os dias e que, começado em 2012, terminei em 2015. Esta experiência marcou profundamente a minha escrita bem como a forma de a divulgar. O blogue ainda está acessível no seguinte endereço: http://1000euma.blogspot.pt/. Como então dizia, a concluir, Foi uma estrada longa, uma lição de paciente e teimosa persistência que espero nunca esquecer.”

 

Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever?

Se quiser indicar os livros que mais influenciaram a escrita breve que tenho sobretudo escrito, terei de indicar os ‘Contos do Gin-Tónic’, de Mário Henrique Leiria e as ‘Tisanas’ (as últimas são 463) da Ana Hatherly. O primeiro pela surpresa da sua escrita libertária, o segundo pela experimentação e disciplina poética. Mas depois disso li muito e gostaria de continuar a ler cada vez mais e melhor.

 

Já ninguém usa caneta e papel, quanto mais máquina de escrever, que material usas para escrever?

Como a minha escrita é habitualmente breve, privilegio a escrita com caneta e papel, e confesso que me sinto mais próximo de mim e da minha verdade quando o faço. A escrita assim realizada está mais próxima do corpo e da respiração, sensação que em mim de outra forma se perde. A mão que escreve faz mais sentido assim.

 

E onde?

Sou, como dizia certo artista plástico, um rapaz de cafés, e gosto de escrever em cafés, ainda que, da forma como os concebo, estejam praticamente em vias de extinção. Gosto de observar as pessoas, de as ouvir, de as surpreender, e o café é ainda o melhor lugar para isso, em que podes estar presente e no entanto quase invisível.

 

Quando (dia, hora, estação do ano) escreves?

Quando escrevo, quando estou mesmo a escrever, estou-me nas tintas para o dia, hora ou estação do ano, ainda que goste sobretudo de escrever muito cedo, desde a alvorada, e tenho pouco tempo no meu dia-a-dia, pelo menos mental, para escrever. Julgo que a brevidade se instalou na minha escrita por esse motivo, ainda que um texto breve possa exigir mais tempo do que parece e solicita muitas vezes a experiência de toda uma vida.

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Vícios, manias e segredos relacionados com a tua escrita …

Não consigo separar a minha escrita da minha vida, e esse talvez seja o meu maior vício, pelo menos vícios que possa e queira aqui revelar. A escrita é vício suficiente, que sinto a maior parte do tempo ficar aquém de satisfazer.

 

Que livro de poesia estás a ler, leste recentemente?

Estou a ler ‘Todas as Palavras’, poesia reunida, de Manuel António Pina. Tenho várias antologias de vários poetas, de consulta constante, e esta foi a última que comprei.

 

Não te limitas a escrever, participas activamente na vida cultural. És membro de associações, e organizas festivais, eventos, tertúlias ou recitais e performances….

Tenho tentado não só não confundir literatura com livro como aproximá-la o mais possível da vida de todos os dias e toda minha atividade vai nesse sentido. Ainda há pouco me perguntavam se queria planear leituras no mercado municipal e eu respondi que era um boa ideia e ia pensar nisso. Continuo a acreditar que a literatura toca-nos no que temos de mais humano e é preciso aproximá-la das pessoas, surpreendendo-as nos locais onde menos estariam à espera. A microficção surgiu-me muitas vezes, pela sua breve profundidade, como uma forma eficaz de chamar leitores à literatura. Sinto-me inspirado pela afirmação de José Saramago de que somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.

 

Um poema inédito de Luís Ene ….

 

Bem feitas as contas

o pouco que fica

do muito que se perde

é tudo o que somos

O resto é nada

 

07
Out17

MIGUEL GODINHO


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Nasceu em Faro, em 1979, mas reside em Vila Real de Santo António desde 2005, onde trabalha, actualmente como Coordenador da Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

Tem pós-graduação em História do Algarve e é  licenciado em Património Cultural, pela Universidade do Algarve, sendo autor de vários trabalhos de investigação já publicados sobre variados temas relacionados com o património cultural algarvio.

Colabora frequentemente em alguns jornais com artigos de opinião, crónicas, ensaios.

Publicou os livros de poesia :
“Os nossos dias seguido de Os lugares antigos” pela Ed. 4 Águas (2009)
“Poemário prostibular”, ed. de autor. (2012)
“O tempo por entre as fendas”, Ed. 4Águas (2013)
“Vertigem”, Ed. 4 Águas (2015)

A sua poesia pode encontrar-se ainda nas antologias: “Algarve: 12 poetas a sul do séc.XXI”; “Os dias do Amor” ; “Alquimia de la tierra – Antología heterogénea de poesia, prosa poética y microrrelato”; ‘’Sizígia’’.

 

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Como é o teu quotidiano como poeta, com entra a poesia na tua vida?

Não existe uma fronteira entre o eu poético e o eu do quotidiano. A poesia acontece a toda a hora, em qualquer lugar. A poesia existe em todas as coisas; tão depressa sou um ser burocrático, quanto um ser sensível/emocional, atento às coisas fundamentais do mundo. Nunca deixo de pensar e de descontextualizar e/ou de inverter a ordem das coisas. A poesia - e a arte, em geral - passa muito por aí: por trocar a ordem das coisas, virá-las ao contrário, senti-las de todas as formas possíveis.

Como disse, a "magia poética" acontece a qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer contexto. Não há horas para as coisas e para a vida se revelar, temos é de estar atentos. O facto de qualquer coisa ser, digamos -- existir -- ou acontecer já acarreta em si uma dose de poesia enorme. A vida é em si mesma um mistério enorme.

Revela-nos autores, livros, poemas que consideres relevantes para ti.

Tenho dois autores essenciais: Jorge de Sousa Braga e Raymond Carver. O primeiro escreve com poucas palavras. O segundo conta histórias carregadas de poesia. O meu poema favorito é um poema de duas linhas: "quanto mais me dispo, menos nu me sinto". É um poema filosófico, é uma escolha de vida, é um lema que me ajuda nas escolhas que faço e na minha maneira de ser e de escrever, visto que também me orienta em termos literários e na minha própria maneira de escrever: não faz sentido dizer muito quando se pode dizer pouco, qualquer coisa como: quando mais um poema se despe, mais autêntico ele se torna.

Algo que possas dizer que te inspira a escrever?

Muito do que me inspira a escrever nem sequer vêm do mundo literário. O mundo musical, por exemplo, inspira-me imenso. No fundo, era o que o outro dizia: isto anda tudo ligado.

Já ninguém usa caneta e papel, quanto mais máquina de escrever, que material usas para escrever, como é o processo material da tua escrita?

Não tenho processo de escrita. Uso papel, caneta, computador, telemóvel, e tudo o que tiver à mão. Sim, tudo é válido para registar.

E o lugar desde onde se escreve….

Os lugares são extremamente importantes. O John Berger exprime muito bem isso num livro que me marcou imenso "Aqui nos encontramos" -- o primeiro conto do livro, que por sinal até se passa em Lisboa, é absolutamente revelador. Na minha escrita, os meus lugares, o meu território, o meu Algarve, é fundamental.

Quando (dia, hora, estação do ano) mais escreves ?

Não tenho ‘momentos’ para escrever. Escrevo quando e onde tem de ser: à noite, a meio de uma reunião, entre despachos, numa toalha de restaurante, na página 5 de um livro, no bloco de notas do telemóvel...

Escrevo muito sobre qualquer coisa - ou tendo por base qualquer coisa: uma notícia de jornal, uma ideia de um livro, uma deixa popular, um aforismo. acredito imenso na ideia de que nada se inventa, tudo se transforma.

Tens participado como autor e como organizador em eventos literários como ‘Poesia na Rua’, Sinónimos de Leitura’ e ‘Palavra Ibérica’...

São três das iniciativas mais relevantes na região, em termos de promoção literária. Com muito pouco conseguem fazer muito: sobretudo promover os autores e as relações entre eles. São - e pretendem ser - sobretudo momentos de partilha.

De um modo geral como analisas a actividade cultural a nível local, nos nossos dias, a que tens estado ligado profissionalmente…

Gosto imenso do que faço, mas acho muito difícil trabalhar-se no/com o meio cultural. Há demasiados egos, pouca formação pessoal e profissional, decisores muito pouco habilitados, aposta-se pouco na formação (técnica, de públicos), são demasiados os arrivistas, apoiados pelo poder político, convencidos que não é necessária experiência nem escolaridade na área. Estamos mal, portanto. Mas vai-se fazendo o que se pode.

Que livro de poesia estás a ler, leste recentemente?

Comprei (finalmente) e reli o livro do Lawrence Ferlinghetti: "A Poesia como arte insurgente". Estou também a meio de "O céu que nos protege", de Paul Bowles.

 

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Um poema de Miguel Godinho

 

dou por mim

a olhar

para o poema

como quem

olha para a vida:

à espera que

qualquer coisa

aconteça

04
Set17

VÍTOR GIL CARDEIRA

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Natural de Conceição de Tavira, Algarve. antropólogo e professor (agricultor de vez em quando e exorcista de palavras inúteis). Um homem como outro qualquer com tendências para o silêncio e para misantropia. Leitor compulsivo. tem com lema de vida -«nunca incomodar». Já disseram que é um autor conotado com a corrente literária barroco-surrealista. Editou: - Transeuntes (contos); Partículas (poesia); passagem através do fogo ( estórias do quotidiano);  A Leste de Tavira (monografia etno-histórica);  Uma mulher Disponível (conto); Exilados (conto); Espuma Evanescente (antologia breve); Poema Falido (folha volante); Cicatrices (contos e alegorias); Escaras (poesia); Danças(?) (poesia).

 

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Como é o quotidiano do teu poeta….

 

Sou um observador de tudo o que mexe e do que está parado. Posso ficar longos tempos num café, na praia, a uma janela, a ver a fauna que passa. E isso, de vez em quando, dá-me bons motivos para escrever: um cão que passou com o dono, um tipo alto com chapéu estranho, uma mulher da Serra que transporta um cesto, uma mota barulhenta, enfim, coisas sem aparente interesse que despoletam em mim qualquer química que me leva à escrita. Como se vê, não tenho quotidiano de poeta.

 

Consegues nomear um livro e um poema de tua autoria que possa ter sido mais relevante por qualquer razão….

 

‘Transeuntes’, o meu primeiro livro. Nunca mais escreverei como naquele livro. E depois… bem, depois, são textos da juventude…

Não sou um poeta, no sentido clássico: escrevo poesia por oportunidade, facilidade instrumental e por questões de tempo -, é complicado escolher. São tão diversos e abordando tantas temáticas que se torna impossível escolher um por preferência. Mas, referiria o poema “Poema Falido”, aliás publicado a solo na editora Canal Sonora, num formato de folha volante, ou, completamente diferente, o poema “Esta é a tua nova casa”, na antologia “12 Poetas A Sul Do Século XXI”.

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Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever?

 

Não posso estabelecer uma relação direta entre autores de quem eu gosto e a forma como escrevo, mas alguma coisa devem influenciar.

Eu sou um leitor compulsivo desde miúdo, quando esperava ansiosamente pela visita à minha aldeia da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, e levava o máximo de livros que eram permitidos levar de cada vez. Mas sempre leitor de prosa. De romances e histórias de aventuras. E continuo assim: pouco leio poesia. Embora goste muito de Pessoa, de Rimbaud, Al Berto, Baudelaire, Herberto, ou, os nossos Ramos Rosa e Aleixo, continuo a ter como grandes referências romancistas ou contistas como Edgar Allan Poe, Boris Vian, Jonh Steinbeck, Albert Camus, Nuno Bragança, José Saramago, António Lobo Antunes, Jonathan Franzen, Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Haruki Murakami, esquecendo-me, certamente, de outros que me marcaram e marcam ainda. Posso ainda dizer, aqui que ninguém nos…lê, que sou um doido pelo Nietzsche. Leio tudo o que o homem escreveu. Às vezes não percebo muito. Mas o que é que isso interessa?

 

Como passa a tua poesia para a escrita?

 

Porque não tenho muito tempo para escrever, ainda escrevo muito no papel. Em folhas soltas, guardanapos e toalhas de papel de cafés e restaurantes, e em pequenos blocos de apontamentos. Como dizia anteriormente, a ocasião faz o… escritor. Depois, na passagem para o digital, faço a revisão dos textos. No entanto, já consigo escrever diretamente no computador quando tenho tempo para me abalançar em longos textos. O word é parecidíssimo com a máquina de escrever: Suporte branco à frente e teclado. Até já chego a escrever no telemóvel…

 

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Quando mais escreves ?

 

Infelizmente, quase só escrevo no Inverno. Preciso de chuva, frio, de dias sombrios e, mesmo, de tempestade para escrever. O que é uma pena: já escrevo pouco e, ainda por cima, só numa época do ano. Ando a ver se me aventuro nos dias mais claros, mas a coisa não tem sido fácil. Talvez por isso a minha escrita seja tão agreste, rude, triste e sombria.

Vícios, manias e outros segredos  relacionados com a tua escrita …

Andar sempre com um bloco de apontamentos para tirar notas. Meter “buchas” no texto já preexistente: escrevo, escrevo, escrevo e, depois de uma narrativa já estruturada e consistente, vou introduzindo pequenas frases nesse texto como que a dar-lhe espaço, textura, respiração. Às vezes mudando mesmo o sentido do texto original. Uma espécie de enxertia no tronco genético. Já a poda, o deitar fora e cortar, me custa muito. Tudo aquilo que está no papel, afinal, faz parte da criação. Mesmo que o filho seja feio…

 

Um poema ….

 

Nunca fomos a Veneza

Estamos sempre a mudar como as serpentes.
Não iremos percorrer as margens lamacentas
Do rio Mekong onde o sangue coagula nas lamas
Envenenadas. Tenho medo de viajar de avião
E tu cansas-te quando a casa se afasta de nós.
Iremos a Cádis: ver o pôr-do-sol e comer salmorejo
Numa rua estreita atrás da catedral. Beber tinto de verano
E cañas com algas do golfo magrebino. Para o ano iremos a Veneza.
É um sonho antigo que a vida tem atirado para o futuro.
Atravessaremos Espanha, França e Itália de automóvel
E chegaremos à cidade dos canais no Verão. Seremos turistas
Como milhões, mas seremos nós a construir o nosso roteiro.
Dormiremos onde calhar e comeremos o que nos apetecer.
Seremos só nós e não conheceremos ninguém. Nas viagens
Só se conhecem cromos e palermices exóticas. As pessoas
Normais detestam estranhos e repelem-nos como bactérias
E vírus que atacam um corpo. Transportamos a nossa condição
De doentes de amor sem que os outros nos perturbem com
Mesinhas salvíficas: a doença faz parte de nós
Como caminhantes duma estrada sem fim.
Estamos sempre a mudar como serpentes.
Nunca iremos a Matchu Pitchu. A montanha é abrupta e o mar imenso.
Sonharemos nas praias do mediterrâneo próximo onde
As autovias nos tragam depressa a casa. Para comer iogurtes
Que fazes na bimby, dormir no nosso colchão de aloé vera
como se não houvesse mais nenhum dia. Abrir a janela
pela manhã e deixar entrar a buganvília roxa e a pimenteira bastarda.
Ouvir o rumorejar do Levante na costa.
Nas ruas desertas conheceremos o que os outros nunca viram.
Subiremos as ruas para a Alhambra e beberemos
A água da fonte das laranjeiras da mesquita de Córdoba e voltaremos
Na urgência dos corpos que se cruzam nas noites
Ardentes do Verão. Viajaremos para lá dos séculos,
Das linhas que os roteiros turísticos nos traçam nas mentes burguesas.
Um dia iremos a Veneza.
Hoje, beberemos uma imperial preta no REF enquanto Tavira
Se liberta dos pesadelos de Agosto.

Cativa, 28 de agosto de 2016

10
Jul17

GABRIELA ROCHA MARTINS

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Gabriela Rocha Martins ,com formação na área de Direito ( Universidade Clássica de Lisboa ) e em Técnicas Documentais ( área de Bibliotecas e Centros de Documentação ) nasceu em Faro .tem quatro livros editados .foi fundadora e coordenadora do projecto literário ,a nível nacional ,“Bienais de Poesia de Silves” ( de 2005 a 2015) .podem lê-la em várias Antologias e Revistas ,em Portugal e no estrangeiro .participou em 4 projectos poéticos ibéricos e faz parte dos Poetas del Mundo .encontra-se representada em escritores.online ,Projecto Vercial e na Wikipédia .tem colaboração nas revistas virtuais Triplov ,InComunidades e Athena .a sua poesia e prosa poética podem ser seguidas em vários blogues ,futuros e-books e livros ,de que se destaca o blogue-mãe - “.cante-chão. (http://cantechao3.blogspot.pt/ )

 

transferir.jpgedição Lua de Marfim,,2015

 

diz do teu quotidiano poético....

 

“Ser poeta é…….” Não ,não sou .nem o princípio nem o fim .não estou nem no aqui ,nem no agora .estou e digo .falo .escrevo .brinco com as palavras e com os leitores com quem estabeleço jogos de fuga ou persuasão .como o faço ,diariamente ,comigo e com os outros .não gosto de compromissos .gosto do Ser-em como premissa de uma vagamunda da palavra .é com ela e só com elas que me assumo .liberta .tudo o mais é voragem , até porque o meu livro de horas há muito que se fechou

 

um dia ,há muito tempo ,alguém me ofereceu uma caneta e mostrou as estrelas .de imediato ,teci pontos de confluência ,silêncios ,afugentei medos ,chorei de raiva ,misturei-lhes gargalhadas e um pouco de melancolia .comecei a ter ,por companheiros de jornada ,um Vergílio Ferreira ,um Alexandre O’Neil ,um Manuel Gusmão ,uma Margueritte Yourcenar ,uma Simone de Beauvoir ,um James Joyce ,um Jean Paul Sartre ,um Rimbaud ,um Jacques Derrida ,um Haruki Murakami ,uma Sylvia Plath ou uma Maria Gabriela Llansol ,entre muitos outros ,e ,no meu acordar devagar ,fui colhendo pétalas .hoje ,tenho-os no meu dia a dia .acordo e adormeço com eles ,roubo-lhes ( sem plágios ) as palavras e as ideias e vou construindo novos trilhos ,novas cadências ,outros escritos ,sem regras e sem normas .não tenho horas para escrever .nem dias .nem semanas .o Levante é o meu senhor .todavia ,tenho a Norma Linguística como ponto de partida e de chegada .diários

 

Consegues escolher um livro e um poema de tua autoria?

 

um livro – “a crispação de um toque a-fora o Ser”

poema - resíduos de in.satisfeição

 

gostava tanto de a dorme’Ser
em des.abrimento e

fazer
em excelência
da algaraviada

resíduos de um estar-a-sós

e de degrau em degrau
descorar
restos de uma morte

não suficiente

 

 Como é o processo material da tua escrita? E o imaterial ?

 

sou ,por natureza e vocação ,uma amante do belo .o visual tem imensa importância no meu delírio escrevente .por isso ,não pontuo ,ou quando o faço ,por uma questão estética ,arrumo a vírgula e o ponto final à palavra que ,cúmplice ,se avizinha .não uso maiúsculas ,porque o computador é a minha tela e sou “uma senhora muito bem educada .não berro ,escrevo” ( exige-se uma gargalhada no fim desta frase ) .desconstruo e construo palavras ,naquele jogo que estabeleço com a Língua e o leitor .pergunto-vos? como se abraça? com os braços ,não? então o hífen ,também meu companheiro ,ajudar-me-á a juntar os braços ,afim de a-braçar ,porque o a-braçar traduz uma acção contínua .contrário ao hífen que junta ,o ponto final separa .se eu permitir ao leitor duas leituras ,porque ficar-me ,apenas ,numa? assim ,pego ,por exemplo ,no verbo referir e separando o prefixo re ,dou de bandeja ,a quem me lê ,a possibilidade de jogar com os verbos ferir e referir .e é este construir ,desconstruindo palavras que vou pintando na tela/ecrán do meu computador ,único meio de poetar .por fim

posso ,eventualmente ,no meu correr pelo dia ,parar numa frase que alinhavo num qualquer papel .posso acordar ,a meio da noite ,com um poema rascunhado .tento passá-lo ,para uma folha .esqueço-o ,durante horas e dias ,nas algibeiras ,sobre as mesas ,secretárias ,ou bancos do carro .há uma notícia que me chama a atenção .um homem que morre gazeado .algures,uma mulher violada  .na maré-baixa ,uma criança morta .um olhar perdido de um miúdo .homens e mulheres que fogem de nenhures .então ,há um grito que me obriga a consciencializar o Outro .aquele Ser-em que ,colado à minha pele ,me acompanha .e ,um dia ,numa hora ,pego-lhes e ,perante a tela branca do computador ,pinto e trabalho as palavras ,com amor ,com raiva ,com desdém ,com mágoa ,nunca com indiferença .uma ,duas ,três ,as vezes que achar necessárias .demoro a escrever

 

Quando ( dia, hora, estação do ano)  mais escreves ?

 

gosto da carícia do fogo .escrevo com o frio e como ave rapace ,a noite acolhe-me de braços abertos .é ,então ,no silêncio ,com o ladrar longínquo de um cão ou o barulho do vento de encontro à portada que teço miríades de presenças in.consequentes a que ouso ,de quando em vez ,chamar poemas

outras vezes ,é o tempo mais ameno que me estende os braços e qual barco peregrino ,deixo-me aportar mais longe

insisto .não tenho horas .não tenho dias .não tenho estações do ano .escrevo .apenas

 

Vícios, manias e segredos contáveis relacionados com a tua escrita …

 

 

sou uma mulher perfeita ( ahahahahahaha ) .não tenho vícios

 

Que livro de poesia estás a ler / leste recentemente?

 

acabei de re.ler ,na semana passada ,“Poesias Completas” ,do Alexandre O’Neil

 

Explica um pouco do projecto do livro «a crispação de um toque a-fora o Ser ( i ensaio derivante)»

 

K_GRMfrente.jpgedição Lua de Marfim,,2016

 

“A crispação de um toque a-fora o Ser” não é ,senão ,a minha homenagem a alguém por quem tenho uma enorme admiração e cujos livros descansam ,numa pequena secretária ,ao lado do meu computador – Maria Gabriela Llansol .às vezes tenho necessidade de pegar num ,enquanto os outros repousam e me olham de esguelha .preciso dela ( como preciso duma Maria Teresa Horta , duma Sylvia Plath ou uma Nélida Piñon ) para ser Eu na escrita .mas a Maria Gabriela Llansol ,como eu ,não é uma mulher fácil .muito menos a sua escrita .quando ,há anos ,peguei no seu livro “Lisboaleipzig I. O encontro inesperado do diverso” senti uma enorme resistência à leitura .não a percebia e a minha angústia em não entender alguém que admirava sem saber porquê ,levou-me a tentar lê-la ,mais e mais ( “Um beijo dado mais tarde” ,” Hölder, de Hölderlin” , “Onde Vais, Drama-Poesia?” , “O Senhor de Herbais. Breves ensaios literários sobre a reprodução estética do mundo, e suas tentações” , “Lisboaleipzig II. O ensaio de música” , “Livro de Horas I: Uma data em cada mão” , “Livro de Horas II: Um arco singular” ,” O Livro das Comunidades” e “Um Falcão no Punho. Diário I” ) e ,a par da leitura ,a estudá-la .a procurar ,nos outros ,caso ,por exemplo ,de Carlos Santos ,de João Barrento e Maria Etelvina Santos – igualmente responsáveis pelo “Espaço Llansol” – de Eduardo Lourenço e ,sobretudo ,da Maria João Cantinho ,que me conduziram ,pelas imagem ,lugares e tempo do universo llansoliano .a partir de então ,Gabriela Llansol passou a ser minha convidada diária … e ,de quando em vez ,havia recados que me pousava no regaço ,que me sussurrava ,enquanto ,eu ,mui lentamente ,ia sentindo a necessidade de interiorizá-los .de assumi-los como meus .e ,daquela crispação primeira fruto de um toque ,adveio a admiração pelo/a-fora esse Ser em excelência ,de seu nome Maria Gabriela Llansol .assim nasceu o livro “da crispação do toque a-fora o Ser”( assim se justifica o título )

 

 

um poema escrito sobre a água

 

*

há dias em que durmo sobre uma enxerga como
se um rol de andarilhos tivesse deixado num
vão de escada os andrajos do vagamundo

*

os vizinhos do prédio onde Amadeus Mozart
escreveu “Idomeneo”
conhecem-me os passos o
vestuário sujo as
mãos cobertas por luvas esbulhadas

*

sirvo aos transeuntes um naco de pão onde o bolor
se alapa para em troca receber uma nuvem 
carregada de chuva

*

não sei que mão devo estender ( porque )
reservo pendurado à esquerda um
saco rasgado por onde o argaço escorre
deixando para trás um oceano aberto
à genialidade

*

levanto a gola do sobretudo onde se acolhem
as pernas e visto-me de
sombras para
mergulhar faminta no repasto do chiste

*

a vida não é uma instalação de arte

 

Queres reflectir/fazer balanço sobre a TEIA…

 

quero ,outrossim ,re.lembrar um projecto colectivo – BIENAIS DE POESIA DE SILVES - onde ,de quando em vez ,um poeta/editor/pintor/músico/entertainer/sonhador/diseur/dançarina(o) se abriu à Poesia ,discutindo-a ,adoçando-a ,musicando-a ou deixando-a ,tão só saltar de verso em verso ,de nota em nota ,de quadro em quadro ou de pauta em pauta .foram dias e foram noites ,foram contaminações de rua ,frases soltas em paredes ,nas montras das lojas ou sobre as mesas e sob os copos ,inesquecíveis .marcas que os Lugares não apagaram e nos quais os Poetas foram deixando lastros ,também ,em Antologias várias .houve vozes do e no Tempo .houve Poetas .muitos POETAS em maiúsculas .houve ,sobretudo ,rescaldos de experiências poéticas que o rio Arade guardará em memórias ,do Crescente à Contemporaneidade .inovámos ,criámos ,fomos ,em dias ,meses e anos ,os andarilhos ousados e vagamundos das palavras escritas ,ditas ,cantadas ,representadas ,projectadas ,dançadas ,pintadas ,editadas ,sonhadas ,interrompidas .durante dez anos ( de 2005 a 2015 ) ,percorremos ,o País literário ,de norte a sul ,numa aprendizagem constante ,tendo a POESIA como viagem ,em registos que o futuro reivindicará como premonitórios

 

Algo que queiras referir….

 

fecha-se o círculo das presenças quando
se suicidam as gargalhadas e
o gato Kafka se enrola nas cordas do violoncelo

( ao longe – delicada -  a sinfonia nº 5 de Gustav Mahler )

29
Mai17

TIAGO NENÉ

 

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Nasceu em Tavira (1982), É licenciado em Direito, e exerce advocacia em Faro, onde reside. Tem desenvolvido intensa actividade na promoção da poesia do Algarve. Fundou com Fernando Esteves Pinto a associação cultural Linguagem de Cálculo e participou no Sulscrito. Fundou o Texto-al, com Luís Ene e Carlos Campaniço. Traduziu para português alguns livros de poemas de autores de língua espanhola. Está representado em diversas antologias de poesia e revistas, participou como autor convidado em encontros e conferências de escritores como o Palavra Ibérica (Punta Umbría) e Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim). Publicou como autor, os livros de poesia ‘Versos Nus’  (Magna,2007). ‘Polishop’ (Colecção Palavra Ibérica,2010), ‘Relevo Móbil Num Coração de Tempo’ (Lua de Marfim,2012).

 

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Parece, no entanto um pouco desconsolado, com a poesia na sua vida, e a vida na sua poesia:

 

É um quotidiano em que a poesia é cada vez menos procurada, ao contrário de há uns anos em que havia claramente mais entusiasmo pelos segredos da escrita.Tornei-me um ser mais cerebral e creio que isso se reflecte na minha poesia, que é muito mais fria do que antes. Busco explorar ideias. Ao leitor caberá encontrar a poesia que mais gosta no meio dessas palavras.

 

Apesar disso, no passado mês de Abril, foi-lhe atribuído o prestigiado prémio literário Amália Vaz de Carvalho com o livro ‘Este Obscuro Objecto do Desejo». O júri reconheceu as qualidades que quis por à prova.

 

 

Para além disso, há o apoio à edição do livro, que é uma das componentes do Prémio, a par da quantia monetária. Felizmente ganhei e não escondo que fiquei feliz. O mais importante é que o livro sairá no final de 2017, e numa editora com muita relevância. Esse é para mim o maior prémio. Já tinha recebido antes uma menção honrosa num outro prémio, sem que a obra tivesse sido apoiada.

 

Encontra-se a ler… «Poesia Presente», uma antologia de António Ramos Rosa que saiu recentemente. Tiago considera o poeta de Faro, como sendo talvez a sua maior influência literária nos dias de hoje.

Tive a honra de o conhecer no final da sua vida. Sei que chegou a ler um livro meu, o que muito me satisfaz.

 

E mencionou de seguida alguns outros autores que gosta como Leonard Cohen, Al Berto, Herberto Helder, Manoel de Barros, Maria Benedetti, entre muitos outros. E na sempre difícil tarefa para um escritor, de entre tantas e diversas leituras e influências, ter de selecionar um livro/poema que considere relevantes apontou os seguintes:

 

Al Berto, O Medo. Poema: Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor.

Rui Costa, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves. Poema: A Nuvem Prateada das Pessoas Graves.

 

Do quotidiano de escrita/na escrita

 

Gosto de escrever à medida que vou lendo outros autores. Preciso de ir buscar inspiração aos outros. É lá que encontro a motivação certa. Não tenho horários para a escrita. Neste momento escrevo quando tenho um projecto em mãos. Quando é assim, posso escrever durante o dia, entre tarefas profissionais. De preferência ao ar livre, com uma chávena de café. A ouvir música. Gosto de música portuguesa enquanto escrevo. Sérgio Godinho, Márcia, Samuel Úria, Dead Combo, ou Amália Rodrigues são óptimos para escrever. Papel e caneta. Depois há um processo de reescrita, que é no computador.

 

Sylvia Beirute, o mistério recentemente revelado….

 

Foi um pseudónimo criado para me dar total liberdade criativa. Criei muita coisa, escrevi muito, falhei muito mas, por entre tanta coisa, cresci muito. Tenho a certeza que se não fosse essa experiência não teria atingido o estado de maturidade em que me encontro. Por outro lado, foi engraçado ter vivido a especulação em torno de quem seria o autor por trás de Sylvia Beirute (‘Uma Prática para Desconserto’; 4águas,2011). Tudo isso foi muito poético. Mas como tudo na vida, terminou. Teve o seu tempo. Foi um longo exercício. Talvez um dia publique uma antologia com os melhores poemas de todo esse tempo.  

 

                                                                     sylvia beirute livro uma pratica para desconserto

 

 

Poema do livro inédito

Nuvem com Superfície Variável

 

NUVEM COM SUPERFÍCIE VARIÁVEL III / RENÉ BÉRTHOLO, 1974

 

Há cinco mil milhões de anos, esta terra arfava

numa massa de rochas e fogo.

Hoje à noite um peixe cintilante voou uma vez,

afundou de novo em azul visível, olhou para baixo,

bem para baixo e encontrou as luzes

de um milhão de pensamentos.

Cá fora, pela cidade, nos pórticos da igreja

e ao longe das razões

adolescentes riem e fumam,

enquanto o seu significado se move para trás da névoa

e da marcha de todo o tempo.

Há cinco mil milhões de anos, esta terra arfava

numa massa de rochas e fogo.

E hoje à noite cores ameaçadas voam, escapando sem cessar,

uma vez que é sabido que sob as penas brancas

existe carne quente apaixonando a gordura;

Mas olhemos com olhos flutuantes e vejamos os sinais de néon,

todos os fluxos de água, os espinhos das flores

ou a contundência das órbitas de estrelas distantes

que em muito passam a ideia de agora.

De qualquer forma, e apesar disso, um ar superior

parece livre no céu,

fluxos com ventos laterais não se deixam filtrar

por verdadeiras ideias ou conflitos,

um pinheiro cresce como se não respeitasse

qualquer sugestão de não-desejo.

Há cinco mil milhões de anos, esta terra arfava

numa massa de rochas e fogo.

Hoje à noite a dor murcha com a falsidade

de uma mosca nocturna forrando o céu a sede insaciável,

as memórias estão cortadas pela metade, enxertadas por sonhos

de cisnes pré-históricos, trilobites, aves mesozóicas,

inaugurando um silêncio esculpido em cascas de som.

E hoje à noite um peixe cintilante voou uma vez,

afundou de novo em azul visível, olhou para baixo,

bem para baixo, e encontrou as luzes

de um milhão de pensamentos.

29
Mai17

ADÃO CONTREIRAS

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Como é o quotidiano do teu poeta/ eu poético / tu com a poesia da tua vida ? Da tua poesia?  

 

Se entendi a pergunta, reformulando-a: como convivo com a minha poesia no meu quotidiano; também poderá querer dizer: no meu viver quotidiano onde está o meu eu poético? Em qualquer dos casos, na intenção subjacente à pergunta, julgo coexistirem três situações, a saber: 1 – o ideário que subjaz nos afazeres rotineiros; 2 - o poeta ou “eu poético” que como “um outro” acompanha o anterior; 3 – que ou como surge o sentimento poético dessa convivialidade.

 Procurar responder a este entrelaçada questão é um pouco dizer o que entendo por poesia, ou dizê-lo de outra forma, provocando-me a mim próprio esta interrogação, - como se inscreverá a poesia no meu quotidiano; subverte-o, acrescenta algo que não o reduza na totalidade à sua coerção ou corrosão?

O viver quotidiano exige, sobre a rotina acinzentada dos afazeres, alguns momentos, ainda que diminutos, da libertação dos sentidos para fora ou para dentro, expandindo-nos emocionalmente. Eu diria que quando isso acontece, estamos a viver momentos de poesia. Contudo, ser poeta no sentido de produzir algo, - a palavra poesia inicialmente significa produzir - exige uma outra dimensão mais, - transmutar esses momentos em linguagem, e escrevê-la. Sendo isto óbvio, não deixa de ser pertinente; o fenómeno, está no segredo da linguagem. Quanto a mim, esta exerce um poder activo sobre o humano, não é indiferente dizer, - sai daqui!..ou, fica aqui…mesmo para quem o diz. Visto assim deste ângulo, a poesia parece inscrever-se no sentido da libertação do sujeito, de resistência ao sufoco. Todavia, se esta ideia nos leva ao pronunciamento da catarse como fim, penso que a arte, a poesia, é mais do que isso.    

 

Diz acerca de coisas dos teus dias em que acontece poesia ou em que a faças acontecer? O que há de poético em certas horas dos teus dias..-

 

Atrás falo da “libertação emocional” como momento poético, quero dizer: limpar/distrair a mente dos fluxos de preocupações que nos obstam a que fiquemos disponíveis mentalmente para pensar e sentir; a poesia exige disponibilidade, embora estados de tensão, não esquecer, também levem à produção; mas liberdade e tensão emocional não são contraditórios, digamos mesmo que, juntas, formam um quadro propício á produção; costumamos designar esses momentos por inspiração. No meu caso a tensão é um dado resultante do pensamento, pensar o concreto, os problemas que o ser pessoa enfrenta: sociais, filosóficos ou procura do sentido, indagação subjectiva, a nossa relação com ou a presença da Natureza e do outro, em nós. Não me vejo à margem do homem político e por isso da política, não sou “ higienista espiritual”, sempre assumi o meu lado partidário e tento não tratar o outro como imbecil, canalha ou irrisório. Não procuro o belo pelo belo, seja na natureza, nos sentimentos piedosos ou amorosos. É a procura de desvelar alguma realidade que me emociona, não é viver o mundo pelo lado do esteticismo. Este é o panorama de fundo onde a poesia me acontece e está presente desde que acordo até ao deitar. Tudo o que existe, e o que existe é tudo, é plausível de meditação, de sentimento, e essa é a grande mensagem.

 O meu primeiro livro Página Móvel com Texto Fixo, foi produzido, em grande parte, durante a noite, já deitado; sobre a mesa-de-cabeceira estava sempre o caderno, e aí ia escrevendo os textos que me iam surgindo. O segundo, Ouro e Vinho, escrevi-o à mesa, enquanto comia, e o terceiro, Mostruário de Títulos para Poemas, cresceu frente ao computador. As mesas dos cafés também dão azo a momentos de produção quando debruçado sobre a leitura. Houve, até, um poema que fiz quando estava a cozinhar e outro quando passava a roupa a ferro; as situações divergem, mas o que é comum nelas é, - o pensar sobre… observar a realidade ou o que julgamos que seja, e confrontá-lo com os nossos pressentimentos. O que digo atrás, contudo, é mais sobre uma parte do processo, as circunstâncias do momento, do que sobre o poema ou o acto, acção poética; para isso temos que entrar na obscura-claridade da linguagem. Para mim, as palavras são uma espécie de cascabulho que a imagética tem que trabalhar em contexto emocional, criando entidades semânticas renovadas; isto é o acto poético, cuja materialidade-imaterial fornece prazer, enquanto culturalmente, produz sentido ao ser humano. A poesia pode ser material, como a fome, por isso se diz que, - nem só de pão vive o homem!

 

Já ninguém usa caneta e papel, quanto mais máquina de escrever, que material usas para escrever, como é o processo material da tua escrita? E o imaterial ?

 

Sou alguém que cresceu mais ligado às artes plásticas do que à escrita, talvez por essa ligação sempre gostei de usar canetas; sou do tempo do aparo, da caneta-de-tinta-permanente, gosto de riscar, dou por mim, distraído, a desocultar o papel branco com traços informais; reflexos inorgânicos – ou orgânicos, duma energia desregulada e por isso formalmente abstracta. Espelho da nossa existência? Muitas vezes acontece começar com uma forma de letra e acabar noutra, outras, misturo inadvertidamente vários tipos de letra na mesma palavra, é uma confusão que me chega a irritar; dificilmente mantenho o mesmo tipo de letra no percurso da escrita, mas às vezes acontece, raramente. Sofro duma certa dislexia gráfica e não só, troco a posição de algumas letras na palavra. Também tem a ver com a dicção, em criança nasci e vivi no campo onde as corruptelas da dicção são frequentes. Quando apareceu o computador tive que me adaptar, a princípio estranhei, mas rapidamente detectei certas vantagens, por exp. alterações e fixação do texto, releitura facilitada, pois a escrita, à mão, acaba por ser quase estenográfica. Actualmente escrevo com os objectos que tenho ao meu dispor no momento, esferográfica, teclado, grafite, caneta de tinta, aparo se for caso disso; tenho uma colecção de aparos de escrita comercial que se utilizava nos livros do Deve-e-Haver. Se isto é importante? – não é e, é; não é porque a linguagem pouco ou nada tem a ver com este processo, e é, porque o prazer de escrever passa também pelo aspecto formal com que se age, neste caso, se escreve. Escrever no teclado do computador, é como escrever sobre o algodão; escrever sobre o papel é como riscar na nossa pele, -mais ou menos, isto. Estes aspectos matéricos da escrita, são interessantes de algum modo, mas os ditos, - imateriais, são de outra ordem. Aqui levantam-se questões – quase esotéricas, diria eu com alguma ironia. Já a palavra, imaterial, contem um poço de sugestões e suspeições! Quando penso ou sinto não há materialidade nenhuma nessa actividade mental, e, acrescento, corporal? Sabe-se hoje, que certas áreas do cérebro são activadas, conforme se reage aos estímulos externos ou internos, e que isso passa pelo percurso de substâncias químicas e energéticas através dos neurónios; criam - mapas, segundo nos elucida o António Damásio, mapas que se repercutem pelo corpo todo, só assim se explica que, - o amor, resida no coração! Para mim a linguagem é um sexto sentido que a natureza ou a acção do ser humano foi capaz de desenvolver ao longo de milénios, senão ao longo de milhões de anos. O tão falado sexto sentido que algumas vezes alguns referem a mulher possuir, não passa da linguagem, mas isso também acontece ao homem, só que o homem anda mais distraído com outros afazeres, anda duma maneira geral mais voltado para a acção exterior; quando se está voltado para a acção interior onde a linguagem se exerce, actua, passa a dizer-se que , - é um poeta, um artista! Neste sentido, a mulher será, por hipótese, sempre poeta, e o homem é-o às vezes! Assim como o ver se exerce através da luz, o tacto pelo apalpar, o cheiro pela activação do sistema olfactivo, a linguagem é activada pela sonoridade das palavras ou pelas imagens, elementos que constituem o significante da fala interior. Uma vez memorizadas as palavras e as imagens, estes entes podem ser activados pelas emoções, esta articulação cria o pano de fundo da linguagem que, procurando dar sentido às emoções, no caso da poesia, produzem por isso um outro tecido, dito imaterial. Sempre tive a ideia de que a linguagem é do ponto de vista da sua percepção, digamos “imaterial” mas exerce um substrato material sobre a natureza humana; a pouco e pouco ela vai criando em nós uma segunda natureza, ou ampliando a natureza inicial. A poesia, a arte em geral, mais do que qualquer outra actividade humana, nesta hipótese, será um trajecto criador de sentido e por isso, do humano.  

 

Quando (dia, hora, estação do ano) escreves ?

Vícios, manias e segredos contáveis relacionados com a tua escrita …

 

 Não vejo um artista a produzir como se fosse um empregado de escritório, com horas ou outra marca temporal a regular o seu trabalho, mas tem que haver uma certa disciplina e continuidade; assim sendo procuro que todos os dias produza alguma coisa, o que pode acontecer enquanto leio, pequenos apontamentos que surgem, ou à noite, depois do dia arrumado. A “mania” que sempre tive e tenho é a de ir ler para o café, no meio de um certo burburinho de fundo e que não seja estridente aos ouvidos. Na minha biografia, há a história dos cafés; Astória, Nova Lisboa, Atlântico, Calcinha, Carripana, e tantos outros mais dos quais não sei o nome.      

 

Consegues escolher o livro (e poema?) de tua autoria preferido? Os mais relevantes?

 

Livro relevante da minha autoria destacava o ‘Mostruário de Títulos para Poemas’; Já em relação aos poemas tenho muita dificuldade em salientar um; certamente há os que me parecem mais conseguidos, mas teria que reler tudo novamente. Essa apreciação depende também muito da perspectiva em que nos colocamos. 

 

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Autores que gostas ou que possas dizer te inspiram a escrever?

 

Desde que fui para Lisboa aos doze anos que leio os consagrados da literatura, portugueses e estrangeiros, desde Zola a Steinbeck, Ferreira de Castro a Júlio Dinis passando pelo Aquilino Ribeiro…a poesia foi um pouco mais tarde, com Cesário Verde, Fernando Pessoa, etc. Todos esses escritores me influenciaram de alguma maneira, uns por um motivo outros por outro; lembro-me do Germinal do Zola,  Anna Karenina do Tolstói, assim como d´ O Bairro da Lata ou A um Deus Desconhecido, do Steinbeck, ou ainda do Elogio da Loucura, do Erasmo. Das leituras mais recentes, há dois livros que me disseram muito: - Em Busca do Tempo Perdido, do Proust, e o Ulisses do Joyce; há nestes livros muito de inovação na linguagem escrita, já não digo tanto do Kafka ou do Musil, o que não quer dizer que não sejam de igual modo grandes escritores. Percebo hoje, que os aspectos da expressão formal da escrita, sempre me prenderam; lembro-me de ter ficado entusiasmado com uma publicação pela embaixada brasileira, nos anos sessenta, do caderno, - Poesia Concreta, que ainda guardo.   

 

Que livro de poesia estás a ler, leste recentemente?

 

Há três áreas de escrita que estou sempre a ler: poesia, ensaio e narrativa, umas vezes mais concentrado numa área outras noutra; só leio em português, não domino mais língua nenhuma, e mesmo o português penso que teria muito a aprender; nunca fui capaz de dominar a gramática nos seus aspectos técnicos; a lisura que eventualmente possa ter na minha escrita é mais resultado da leitura do que do saber. Estou a ler um livro de crítica literária do David Mourão – Ferreira, - Vinte Poetas Portugueses, de 1980; O livro da Consciência do António Damásio, e estou a acabar de ler, O Livro do Desassossego, compilação da Teresa Rita Lopes; já tinha lido o Bernardo Soares, mas estou a relê-lo, mais os outros dois semi-heterónimos, como o FP dizia.

  

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Como encaras mais um livro de poesia, e este em relação aos anteriores?

 

Este meu último livro, ‘Púrpura Voz’, foi um pouco surpresa, porque não o tinha em mente publicar, sobretudo depois do ‘Mostruário’. Formalmente está na sequência do ‘Ouro e Vinho’, quase nada tem a ver com os outros dois, mas é mais depurado do que aquele. Ao rever os poemas eliminei tudo o que me pareceu estar a mais, ao ponto de alguém me dizer: - são tão pequenos os poemas…, mas já não há palavras? O ‘Púrpura Voz’, está arrumado em quatro contextos temáticos e abarca um tempo de produção à volta de vinte anos, entre o mais antigo e o mais recente dos poemas. Claro que, quando escrevi o poema de há vinte anos foi como um complemento a um trabalho de artes plásticas e não era um texto autónomo, como aparece no livro. Dos últimos, que também são os que estão no fim do livro, constituem uma experiência; há um verso e a seguir em itálico uma espécie de eco, ou como se fosse o coro das tragédias clássicas do teatro grego.

 

Completa as frases:

Os artistas continuam a morrer…. se forem felizes.

O Algarve é um bom lugar para…. despir a pele, deixar queimar o coração

O projecto Gorjões Arte é…. total arte.

A António Arroio para mim foi…. uma nuvem de desassossego.

A galeria Margem era …. um barco na maré baixa

Ainda há uma esperança para o mundo enquanto… se disser que, há.

 

 

Escolhe um poema teu :

 

Começar a escrever pelo lado do avesso – o lado mais puro do abandono -- um solilóquio de palavras soltas, inéditas ­­­­- e na sua voracidade de nada dizerem - o outro lado onde a natureza mãe nos golpeia com os ácidos do obscuro

 

Palavras hibernadas e em contra luz

 

Manhã           a manhã quente que devora os homens na superfície dos  

                        nomes

 

Voz                 a voz que escreve nas ardósias o pulsar dos corações

 

Elástico          o elástico matinal onde o luar se esconde

 

Claustros       as abóbadas  de ferro onde o som se torna  denso

 

Realidade      a descrita realidade como uma pulga saltando do berço

 

Objecto         o objecto que não existe no lume de alguns diamantes

                      

Sombra         a sombra das palavras negras inconstantes sem farmácias

                       por perto

 

Sonora          a sonora manhã encostada às espigas dos homens com  

                      forquilhas  penteando os azedumes

 

 

- Gostava de começar a escrever pelo lado do avesso onde a intriga do silêncio é desinquietação da claridade